Pequena introdução à anatomia e Biomecânica:
Anatomia do membro inferior
Termos direccionais:
Para melhor falarmos sobre a anatomia do membro inferior existem seis (6) termos direccionais que devemos aprender:
· Proximal (perto do corpo) em oposição a distal (distante)
· Anterior (frente) " " " posterior (trás)
· Medial (dentro) " " " lateral (fora)
· Plantar (baixo) " " " dorsal (cimo)
Os ossos

O pé possui:
· 26 Ossos
· Dois sesamoides
· 38 Articulações
· Dedos
Os ossos dos dedos são chamados de falanges, existem 14 falanges duas no dedo grande e três em cada outro dos restantes quatro dedos, os dedos são numerados de 1 (dedo grande) a 5 (dedo pequeno)
Os sesamoides são dois pequenos ossos existentes na superfície plantar da primeira falange do primeiro metatárso.
Ante pé
Existem 5 metatarsos em cada ante pé.
Estes ossos longos possuem uma base e uma cabeça, a cabeça é a parte que forma a articulação metatarsofâlangica. na superfície plantar (sola do pé) da cabeça da primeira articulação metatársica existem dois pequenos ossos chamados sesamoides . a base é a parte que se encontra mais perto do resto do corpo , formando a articulação tarsometatársica.
Retro pé
Os ossos do retro pé são os tarsos.
Existem sete (7), três(3) merecem ser referidos: o escafóide que é o osso mais saliente do lado medial (dentro) do pé acima da arcada longitudinal, o calcâneo que é o osso do calcanhar, é o maior osso társico onde está ligado o tendão de aquiles e o astrálago que se encaixa em cima dos outros ossos társicos formando a articulação do tornozelo ou tibiotársica .
O membro inferior
Os ossos da perna são:
A tíbia que é o osso que suporta a maior parte do peso.
O peróneo que serve mais de estabilizador, suportando pouco peso.
A articulação do joelho
A articulação do joelho é formada pelo fémur e a tíbia, a rótula (patela) encaixa no topo desta articulação, formando uma articulação com o fémur.
As articulações
Uma articulação é um ponto de junção entre partes do esqueleto com partes que as rodeiam e apoiam.
-existem 38 articulações no pé.
Os ossos no pé formam arcadas. Existem 5 arcadas nos pés mas, para termos práticos vamos falar de três:
A arcada que toda a gente conhece chama-se arcada longitudinal interna ou medial, que corre desde o calcanhar até ao inicio dos dedos, é mais elevada do que a arcada lateral (externa).
A outra é a metatársica ou transvérsica, que corre através da largura do pé.
Existem 107 ligamentos no pé, um ligamento é uma faixa de tecido fibroso que segura os ossos na articulação. não vamos falar dos 107 em pormenor.
Músculos e tendões
As restantes camadas de tecido são constituídas pelos músculos e tendões (33 e 19 respectivamente 18 dos quais passam pela sola do pé).
Os músculos são tecidos de ligação que permitem a contracção.
Os tendões são tecidos de ligação que estão ligados ao músculo e a outra zona que transmitem a força exercida pelo músculo.
Outro ponto importante no pé é a fáscia plantar que é uma zona de tecido de conecção desde o calcâneo e os metatársos.
Movimentos dos músculos
Os músculos do membro inferior fazem quatro movimentos básicos (e as suas combinações):
Iversão é a rotação interna como que fazendo as plantas dos pés virarem para fora.
Eversão é a rotação externa como que fazendo as solas dos pés tocarem-se.
Flexão dorsal consiste em apontar os dedos para cima como que caminhando sobre os calcanhares.
Flexão plantar consiste em apontar os dedos para baixo como que caminhar em bicos de pés.
Os outros tecidos moles relacionados com os pés são:
A bolsa de gordura do calcanhar:
Localizada debaixo do calcâneo é o primeiro amortecedor natural do corpo durante a caminhada, esta bolsa torna-se mais densa e fina com a idade.
A pele
A pele possui várias camadas, as duas principais são:
Derme (a camada mais profunda da pele, que contém nervos, vasos capilares e mais de 60.000 glândulas sudoríferas).
Epiderme (camada mais superficial, onde a maior parte das células se encontram mortas).
Biomecânica

O pé e a sua função:
“O pé humano é uma peça de engenharia e uma obra de arte”, esta afirmação de Leonardo Da Vinci (1452-1519), não podia ser mais verdadeira.
O pé é um órgão com um duplo propósito, sendo que ambos os propósitos são opostos.
Em primeiro lugar o pé é um órgão de amortecimento de choques ou impactos, adaptando-se ao solo irregular, em segundo também precisa de ser uma alavanca rígida para permitir a deambulação, e para que o mesmo órgão consiga fazer estes dois trabalhos, o seu comportamento deve sofrer alterações dramáticas durante as diferentes fazes do seu ciclo mecânico.
O ciclo mecânico em corrida:
Durante a corrida, o contacto com o solo normalmente ocorre com o lado lateral do calcanhar, com o pé em ligeira supinação (abdução, inversão e flexão plantar), segue-se então um período rápido de pronação (adução, eversão e dorsiflexão), permitindo a dissipação da energia de impacto, associada a esta pronação acontece a rotação interna da tíbia, que por seu lado cria rotação no plano transvérsico do joelho. A cerca de 35% da fase de contacto no solo (apoio monopodal), este movimento de pronação termina, começando então o pé a resupinar, a cerca de 50% da fase de apoio, a articulação subastragalina, já voltou à sua posição neutra e a articulação mediometatársica está na sua pronação máxima, permitindo ao pé passar de uma plantaforma de amortecimento de impactos para uma alavanca de propulsão.

Apesar da necessidade deste movimento de pronação como forma de adaptação ao solo e amortecimento de impactos, em certas ocasiões ocorre um excesso de mobilidade, o pé acaba por rodar mais do que deve, inibindo a sua função de amortecimento de impactos e dificultando a passagem para a propulsão, esta hipermobilidade tem sido relacionada com um número significativo de lesões, incluindo as mais citadas em estudos e inquéritos a corredores.
A Relação pé Joelho:
Entre70-80% de todas as lesões relacionadas com a corrida localizam-se entre os joelhos e os pés, sendo as mais comuns:
Fracturas de esforço
Entorse tibiotársico (tornozelo)
Fasceíte plantar
Bolhas, hematomas
Síndrome iliotibial
Condromalacia Patelar
Outras (não específicas, dor no arco plantar, no pé ou tornozelo)
A tíbia roda internamente mais rapidamente que o fémur, este movimento contribui para o desbloqueamento da articulação do joelho.
Rotação interna em excesso, no entanto pode estar relacionada com excesso de pronação do pé.
A razão pela qual os problemas no pé podem afectar o resto do membro inferior é explicável pelo princípio da cadeia cinética fechada.
A cadeia cinética fechada implica que o pé esteja em contacto com o chão, quando o pé se encontra em contacto com o solo, qualquer movimento numa parte do membro afecta as restantes partes.
A rotação interna da tíbia provoca pronação no pé na articulação subastragalina. De igual modo o movimento de pronação do pé provoca uma rotação interna da tíbia e do fémur, seguido pela rotação de toda a perna, através de movimentos de supinação a tíbia e todo o membro inferior rotarão externamente.
Uma das articulações chave nesta capacidade do pé em adaptar-se e aguentar estas cargas extremas conseguindo ao mesmo tempo impulsionar o corpo é sem dúvida a articulação subastragalina, o ciclo biomecânico, durante a fase de apoio do pé ou apoio monopodal (começa quanto o pé está em contacto total com a superfície do solo) o pé está a pronar pela articulação subastragalina, estando simultaneamente a perna a rodar internamente e o pé a absorver as forças de impacto, adaptando-se à superfície do solo, na fase seguinte a impulsão ou período de propulsão (que inicia com o calcanhar a despegar do solo e finaliza com o despegue dos dedos) a articulação subastragalina deve supinar para que o pé consiga agir como uma plantaforma rígida de impulsão.
A hipermobilidade e as lesões:
Quando ocorrem anormalidades nos tempos e acções do ciclo biomecânico do pé em apoio, a transferência de forças não é normal, acabando por criar movimentos compensatórios que são extremos, como a pronação/hiperpronação (o desvio à normalidade mais comum) e a supinação (mais rara).
Os pronadores (hiperpronadores) sofrem muito frequentemente de uma série de lesões tais como:
Dor não específica no tornozelo, dor lateral no joelho, canelite (dor não específica nas canelas), fracturas de esforço, joanetes fasceíte plantar e tendinite aquilina .
Apesar da verdadeira supinação ser relativamente rara, os atletas que posuem o ciclo mecânico com estas características sofrem igualmente de lesões consideradas severas, o pé supinador é rígido, não distribuindo as forças convenientemente, assim as forças de impacto com o solo são mal dissipadas podendo resultar em fracturas de esforço.
A fasceite plantar e entorses no tornozelo são também muito frequentes entre os supinadores.
O calçado desportivo
A corrida/Jogging, tal como outras modalidades desportivas, requer calçado desportivo específico, já que um modelo de calçado bem adequado, pode ser a melhor ortótese preventiva que um desportista possa usar.

· Controle biomecânico
Os movimentos mecânicos básicos podem, e são afectados pelas propriedades de controle biomecânico ou estabilidade dos sapatos.
O ciclo biomecânico possui três tipos básicos de movimentos:
· Ciclo normal ou neutro
Durante um passo de um ciclo neutro o pé ataca o solo pelo calcanhar exterior depois, quando passa para a fase do apoio o pé roda para o lado medial (interno) dispersando a maior parte das forças. o propósito desta acção de rotação do pé e tornozelo, é ajudar a dispersar os impactos depois, o ciclo completa-se com o impulso.
O termo refere-se ao movimento do pé hipermóvel, que roda muito rapidamente para o lado medial (interno) do pé. Este movimento provoca muito stress ao nível do membro inferior (perna e pé), a pronação pode provocar uma série de lesões como tendinites, esporões, etc..

Este movimento mecânico é o oposto da pronação, em vez de possuir um pé hipermóvel que roda demasiado para dentro, o supinador possui um pé extremamente rígido e infléxivel, depois do ataque inicial o peso mantém-se no lado lateral (fora) do pé, como o pé não roda os impactos não são distribuídos, acabando por afectar o membro inferior. a supinação pode provocar várias lesões como: tendinites, fracturas de stress, etc. devido ao facto de não rodarem o suficientemente os pés, os pronadores desgastam os sapatos normalmente do lado de fora na estrutura superior.
A pressão individual dos pés durante o ciclo pode ser vista através do padrão de desgaste da sola, normalmente o calcanhar deve estar gasto do lado lateral e a planta deve estar gasta uniformemente.
A severidade da pronação ou supinação poderá ser determinada, analisando a inclinação do contraforte ou compactação da sola intermédia quer do lado medial, quer do lado lateral.
No entanto apesar de ser um bom indicador não é o único, as palmilhas também poderão fornecer pistas de como o pé se comporta durante o ciclo.
Os tipos de pés
Existem três tipos de pés
· pé cavo (pé rígido)


Uma vez que a estrutura do pé é elevada o pé torna-se mais rígido e tende a não dispersar o impacto bem, o peso tende a ser "atirado" para o lado lateral pelo que muitos indivíduos com o pé cavo são supinadores.
O pé normal possui uma arcada normal.


· Pé raso (pé hipérmóvel)


O pé raso possui uma arcada longitudinal muito rasa, as pessoas com o pé raso tendem a rodar o peso todo muito rapidamente para o lado medial do pé, a maior parte dos indivíduos com pé raso são pronadores.
Cada sapato tem uma história para contar...
Através da análise dos sapatos velhos dos clientes podemos verificar quais são as suas necessidades.
As linhas de suor das palmilhas
Uma das formas de verificarmos as necessidades dos clientes é através da leitura das linhas de suor das suas palmilhas, algumas indicações da "american soceity for testing an measurements (astm):
As linhas de suor indicam:
1. Como a planta do pé acomoda no sapato.
2. O peso que é feito pela arcada do pé.
3. Onde os dedos entram em contacto com o sapato, revelando se os dedos possuem espaço suficiente para expandirem.
A acomodação correcta
Existem diversas considerações a ter em conta na acomodação correcta:
Compensar características dos pés:
Pronadores e pessoas com arcada rasa, cujos pés são hipermóveis e tendem a rodar rapidamente para o lado medial (dentro) do pé, precisam de sapatos que ofereçam estabilidade, devemos procurar sapatos com as seguintes características:
1. Formato direito
2. Dispositivos anti-pronação
3. Solas intermédias firmes no lado medial
4. Construção colado ou combinado

supinadores e pessoas que possuem pés cavos, cujos pés são rígidos e tendem a forçar o peso para o lado de fora (lateral), precisam de sapatos que ofereçam flexibilidade e amortecimento de impactos, devemos procurar sapatos com as seguintes características:
1. Formato semicurvo ou curvo
2. Amortecimento extra
3. Construção cosida ou combinado
Acomodação do pé no sapato
Uma vez determinado o sapato que melhor corresponde ás necessidades do pé em particular é necessário que o pé fique bem acomodado nesse sapato, para assegurar a melhor acomodação devemos:
Certificar que o pé assenta na parte mais larga do sapato sem sair para os lados.
Certificar que o comprimento é adequado, através do método da largura da unha (do comprador) em folga.
Os pés são a fundação do corpo problemas aqui poderão resultar em problemas na perna, joelho, costas, ou anca.
Artigo relacionado
A Hipermobilidade do Membro Inferior em Corrida e a sua Limitação com Calçado Desportivo
Artigo originalmente publicado na revista www.revistapodologia.com nª11 Dezembro de 2006


